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Caminho Para o Céu - Antoninho da Rocha Marmo
Embora cercado pelos desvê-los de seus virtuosos pais, Antoninho recebeu o primeiro ósculo do sofrimento: leve dor de cabeça acompanhada de uma febrezinha significativa. Chamaram logo um médico, e Antoninho o recebeu com um sorriso que lhe era peculiar, como que achando inútil aquela visita… Já conhecia seu fim…

O facultativo receitou uma poção, deixando o doentinho em ótimas condições.
O medicamento fora acertado.

Numa segunda visita, nada constatou que desse motivo para alarmar a família.
Manifestou-se, porém, o sarampo, enfraquecendo-o um pouco. No entanto, o médico assistente achou que a permanência de alguns dias em Santos, seria o bastante para restabelecê-lo. Antoninho principiou assim sua Via Crucis.

Seus pais notando que de nada lhe valera essa mudança, o trouxeram de novo para a capital.
Antoninho definhava… submetido a novo exame clínico, nada de grave se apurou… era uma simples fraqueza, sem complicações maiores…

Tudo se resolveria satisfatoriamente…

Bastariam alguns dias em uma cidade de bom clima e em breve suas forças depauperadas se recomporiam…
Nova viagem… e lá vai Antoninho para São Roque! Novo médico, novos exames clínico. Apresentado um bom diagnóstico, estava ele entretanto com pleuriz seca! E havia residido em Santos, clima inadequado para essa moléstia. Assim mesmo, todos se alimentavam de fundadas esperanças em vê-lo curado.

Nova decepção, Antoninho não melhorava.
No entanto, apresentava-se sempre ativo, não demonstrando nada de grave, o que tranquilizava sobremaneira os pais. Pensavam que a sua fraqueza nada era mais do que consequencia do sarampo, sua primeira enfermidade.

Assim mesmo, seus pais levaram-no novamente ao clínico onde ele foi submetido a um longo e meticuloso exame.

Achara o facultativo que seu cliente estava atacado de moléstia cardíaca e por isso, receitou-lhe injeções fortificantes e reguladoras. Durante sete longos meses passou Antoninho com o tratamento prescrito. Cheios de esperança, exceto Antoninho, todos propediam a crer na nova moléstia… Uma noite o menino sonhou que um vulto lhe dissera “Você está com dois kilos a menos. Irá diminuindo aos poucos… Prepara-se porque vai para Campos do Jordão…”

No dia seguinte, contou a sua mãezinha e na presença de mais pessoas, o sonho.
Ela não lhe deu importância, levando-o porém à balança. Confirmara-se o que Antoninho lhe dissera, o sonho revelador não era mentira. Estava com dois quilos a menos. Após novo exame, o médico aconselhou para que fossem para Campos do Jordão.

Antoninho, em ar de descrença, sorriu, dizendo “Minha mãe, o médico errou.
Ao tomar-lhe a temperatura, diz o médico “Não tem febre, temperatura normal 36°, vai bem, muito bem.
Antoninho com toda naturalidade, disse “Doutor, o senhor se enganou… veja bem, o termômetro marca 38 e 1/2.

Efetivamente.
Era isso mesmo.
O médico, admiradíssimo pela atividade do menino, meneou a cabeça e ficou pensativo.

Antoninho estava tuberculoso!

Os médicos, apesar dos seus estudos e da grande prática que tinham, não conheceram logo a moléstia dessa singular criatura. Ele porém, sabia do seu estado, tanto que interpelara certa vez o médico perguntando “Doutor, porque será que os médicos estudando nos mesmos livros, não dizem a mesma coisa?

O médico perplexo e ao mesmo tempo atrapalhado com a arguta e irrespondível pergunta do menino, contentou-se em dizer apenas “Ora, Antoninho… a medicina é… é… é muito complicada…

O pai do pequeno não se conformava com a viagem para Campos do Jordão.
Aflito e desconfiado, pediu ao médico toda a franqueza. E o médico disse “Não se aflija, não é nada, fraqueza é só fraqueza. O coração um pouco atacado… só a viagem lhe fará bem, fique certo.

Confortado, sentiu que essas palavras esperançosas vinham, como um bálsamo, suavizar a alma.
Animado assim, com novas energias, preparava-se para essa viagem, certo de que bastariam alguns meses de permanência em Campos do Jordão para se confirmarem as suas suposições. Antoninho iria sarar.

Em São Roque, quando o tempo permitia, Antoninho fazia seu passeio matinal. Nessa excursão retemperante incluía, como um dever sagrado, visitar a matriz. Na igreja sentia-se feliz, porque ia dar o bom dia a Jesus.

Quando chegavam à praça que enfrenta o lindo tempo, ele se adiantava, deixando atrás o companheiro. Radiante, transpunha os umbrais da Casa de Deus, fixando-se ante o tabernáculo em atitude meditativa. Ouvia assim a Jesus, deixando cotidianamente o seu coração inflamado de amor e pronto a sofrer por ele.

Providenciada que foi sua volta para São Paulo, ao despedir-se dizia a todos: “Muito obrigado; fiquem todos com Deus.” Permanecendo, embora pouco tempo em São Roque, soube ele cativar inúmeros corações, deixando por isso, muitos amigos. É que, além de sua brandura, sabiam todos admirar-lhe a animosidade quando pungido pelo aguilhão da dor, fosse ela corpórea ou lhe ferisse fundo o coração.

Em suas penosas viagens, lembrava-se sempre de Jesus quando subia ao calvário sob o peso do sagrado lenho.

Porque? Para expiar ele também, com o sofrimento, a culpa e remir os pecados humanos.
Que belo e edificante exemplo e que livro sempre aberto para nossas meditações.
É bem de ver-se que, dadas as imperfeições do mundo, não podemos facilmente seguir-lhe as pegadas nesse seu desprendimento por amor de Jesus. Contudo, peçamos ao seu elevado espírito que nos sustenha, pensando como Santo Agostinho “O TRAVO AMARGO DO CÁLICE DO SOFRIMENTO, DO QUAL NOS TOCAVA PROVAR ALGUMAS GOTAS, JESUS, O MEIGO CORDEIRO DE DEUS, RESERVO-O INTEIRAMENTE PARA SI.” Antoninho sentia na alma as palavras de São Paulo “SUPERABUNDO GAUDIO IN OMNI TRIBULATONO MEA… e consequentemente, ITA ET PER CHRISTUM ABUNDAT CONSOLATIO MEA…”

Antes de deixarem São Roque, Antoninho já sabia avaliar perfeitamente a gravidade do seu estado e positivar o seu fim.

Uma senhora dissera à sua mãe que Campos do Jordão era um bom lugar, mas reservado aos ricos… queria lembrar com isso que eles não poderiam arcar com tamanhas despesas. Essas palavras ouvidas por Antoninho obrigaram sua mãe a adiantar: “meu filho, descanse que haveremos de fazer tudo para que possas recuperar a saúde.” O menino, que seguia atento toda a conversação, disse: “Não há de ser nada minha mãe, nós iremos a Campos do Jordão mas… será uma viagem inútil.

Dias depois, Antoninho recebia de seu pai um telegrama em que comunicava que ele havia obtido outra colocação para trabalhar em horas disponíveis. Com o numerário agora acrescido, fácil ser-lhe-ia prover as novas despesas que teriam em Campos do Jordão.

Em São Paulo, depois que chegaram de São Roque, sua família recebe a visita da Sra. X, cuja vida particular era inteiramente desconhecida de todos, Antoninho assim que a viu perguntou: “A senhora é casada?” A pobre senhora, achando-se em situação embaraçosa por essa intempestiva pergunta, tartamudeou: “sim… sou… meu bom menino!” “Porque, se a senhora não for, esse homem não voltará mais” continuou ele… e assim aconteceu.

Certa vez, em Campos do Jordão, Antoninho, preocupado ainda com esse caso, pediu que escrevessem à aludida senhora, aconselhando-a a que regularizasse sua vida.

De Campos do Jordão haveria ele de regressar curado, julgavam todos.

Antoninho, somente, adivinhava o triste epílogo de sua dolorosa peregrinação!

Se já era um anjo de bondade, tornara-se agora muito mais acessível, procurando sempre consolar aos outros. Prosseguia na mesma vida resignada, sem uma lamentação. Mostrava-se alegre, embora muitas vezes o fizesse com grande sacrifício. As esperanças de todos voltavam-se agora e justificadamente, para Campos do Jordão! Antoninho suportou-a galhardamente, o que veio aumentar ainda mais as esperanças que nutriam pelo seu restabelecimento. Ironia atroz: Campos do Jordão deveria ser, no entanto, mais uma etapa de sofrimentos para os seus pais e uma dolorosa expectativa para os seus irmãos e parentes.

Em vez de subirem ao Trabor onde lhes sorrisse a felicidade, demandaram o calvário de exacerbada dor.

 

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